Narcisismo da selfie é sintoma do século 21 exposto na web

Nos últimos anos, a exibição da imagem virou regra ao ponto de estar nas redes sociais virar sinônimo de existir on-line e off-line. E o contrário também vale. Para o bem e para o mal, a exposição na web é uma realidade difícil de contornar hoje em qualquer canto do planeta.

Por Alexandre Meireles 25/09/2021 - 09:27 hs

Em 1999, o filme Matrix surpreendia o mundo com pancadaria e realidade simulada. A obra das irmãs Lilly e Lana Wachowski também ensinava que do lado de lá, na simulação, pode-se ter uma nova aparência e ser o que quiser. O apagado personagem Neo do mundo real, vivido pelo ator Keanu Reeves, quando lutava na Matrix se transformava em outro, com um visual mais arrojado e habilidades nunca antes imaginadas por ele.

Duas décadas à frente depois do filme, a comparação da matrix da ficção científica com as redes sociais fica cada vez mais fácil. Com o celular nas mãos e alguns aplicativos, qualquer pessoa pode simular a realidade que quiser e se exibir do jeito que quiser. 

Em 2013, o canal inglês BBC escolheu como destaque do ano uma palavra que começava a sair do uso restrito das redes e mídias sociais para se tornar uma expressão usada no cotidiano no mundo inteiro: a selfie. O velho autorretrato agora ganhava não só um vocábulo novo para definição, mas também novos sentidos ligados à exibição pública.

Com um terreno preparado por outras redes sociais, como o Orkut, de 2004, e o Facebook, de 2006, o Instagram foi definitivo na arte de se exibir nas redes. Ele foi criado foi criado por Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger e não demorou a virar uma febre mundial e impor um ritmo de produção para as redes depois copiadas por outras plataformas, como o recente Tiktok, lançado em novembro de 2016.

A exibição nas redes trouxe tendências de moda e estética seguidas à risca por muita gente. Entraram em alta as “it girls” ou as “blogueirinhas”, como os brasileiros preferem. A vida perfeita em cenários perfeitos com gente bonita, saudável e descansada passou a ser quase uma obsessão em escala global. Não à toa, doenças e transtornos ligados a exposição desse conteúdo começaram a ser mais frequentes. Ansiedade, depressão, transtornos ligados a perceber a própria aparência, perseguição de padrões estéticos inalcançável e muitos outros passaram a figurar as conversas do cotidiano e em consultórios médicos e de psicoterapia.

Por outro lado, em um movimento reverso, as mulheres começaram a se firmar contra os padrões estabelecidos e também a exibir caras, corpos e formas muito diferentes do que a moda e a indústria da beleza exigem. Perfis afirmativos cresceram em progressão geométrica para dizer não à ditadura da padronização. A gordofobia e outros tipos de discriminação ao que é considerado “diferente” ganharam opositoras e opositores ferrenhos em prol da liberdade de ser o que se é on-line e off-line.  

Um novo contato com os fãs

A exibição como marca da segunda década do século 21 também teve seu lado positivo como aproximar artistas, antes reservados e sem contato com os fãs, dos se pública por meio das redes sociais e dezenas de canais de comunicação direta. Uma mudança que também trouxe proximidade e outra leitura sobre a vida de astros e estrelas da literatura, música, do cinema e da televisão, antes encastelados na sua vida estritamente privada.